Estou postando uma conversa com Celso Grisi, professor da FIPE e da FEA na área de Marketing, ele deu uma boa entrevista ao Estadão tocando vários pontos interessantes.
A entrevista tem como título a elevação do IOF (imposto sobre operações financeiras), mas ele deu um panorama sobre o que vem acontecendo no mundo e falou de muitas coisas que eu falei nos últimos dois posts. Bom vamos pensar sobre as coisas que ele falou nessa entrevista.
Guerra comercial: bom foi dito que o mundo está em uma guerra comercial, onde todos querem exportar. Mas por que todos querem exportar? Bom vamos pensar, quando exportamos vendemos a nossa produção para compradores estrangeiros, o que é bom para a nossa economia, pois ela esta sendo estimulada pela nossa demanda interna, ou seja o compradores nacionais, e pela demanda externa.
Para facilitar a nossa exportação queremos a nossa moeda local desvalorizada, eu já expliquei isso em um post anterior (http://politicatalvezeconomica.blogspot.com/2010/10/hipotese-de-formacao-de-bolhas-no-pais.html), mas vale a pena retomar. A moeda local desvalorizada aumenta a nossa competitividade frente aos outros produtos no mercado internacional, pois ela reduz o preço da nossa exportação. Dando mais uma vez o exemplo da soja, imagine que somos um grande exportador de soja e queremos vender nosso produto por R$90,00 a tonelada e US$1,00, vale R$3,00, a nossa tonelada no mercado internacional custará US$30,00, mas se US$1,00 estiver valendo R$2,00, ou seja o real se valorizou a nossa tonelada irá custar US$45,00, dessa forma vamos vender menos soja. Além disso quando formos trocar esse Dólar por Real, nós vamos receber menos Reais, ou seja a renda em Real desse exportador vai diminuir através desses dois fatores.
Bom entendido o por que de uma moeda local valorizada facilitar a exportação, entendemos também o por que de o Brasil estar sendo prejudicado nessa Guerra comercial. Devido ao grande fluxo de capital estrangeiro para o Brasil através das aplicações financeiras o Real se valorizou, o que tornou o produto brasileiro menos competitivo. Mas por que há esse grande fluxo e por que o Real se valoriza com ele?
Vamos por partes, primeiro o grande fluxo se deu devido a arbitragem dos investidores, ou seja a capacidade destes de escolher entre investimentos levando em conta o seu risco e o seu retorno. A taxa de juros dos EUA está muito baixa, ou seja o retorno do investimento nos EUA está baixo. Já no Brasil a taxa de juros é bem alta, a mais alta do mundo, portanto o retorno do investimento é muito maior, fazendo o risco de investir no brasil, que é maior que investir nos EUA valer a pena, assim eleva-se o fluxo de capital estrangeiro para o Brasil.
Agora que o investidor estrangeiro resolveu investir aqui ele precisa de Reais para fazer isso, ou seja ele vai trocar Doláres por Reais. E o mercado de câmbio como o nome já diz é um mercado, e portanto está sujeito as pressões de oferta e demanda, dessa forma uma maior demanda por Reais eleva o preço deste, fazendo ele se valorizar frente ao dólar. Prejudicando assim a posição do Brasil nessa guerra comercial.
O IOF então vem para barrar um pouco essa entrada de investimentos, agindo sobre o investimento que menos traz benefícios ao país, que é o investimento especulativo de curto prazo, deixando-o mais caro e portanto menos atraente, contribuindo para conter a valorização no câmbio.

Celso Grisi fez comentários sobre a China, mas a maioria destes está no ultimo post que é exatamente sobre a alta dos juros neste país.
Aspectos positivos e negativos do real valorizado: os aspectos positivos citados foram interessantes. O Real valorizado estimula a entrada de produtos importados, é só fazer o mesmo exercício que fizemos com a soja, mas pensando agora no Brasil como o comprador internacional e os estrangeiros como o produtor de soja. Desta forma a indústria brasileira é obrigada a se modernizar para aumentar a eficiência e competir com esse fluxo de importados que são produzidos a custos menores devido à grande eficiência na sua produção. Outro aspecto positivo é que as viagens internacionais e os produtos importados ficam mais baratos, beneficiando nós compradores que temos acesso a bons produtos à preços muito bons.
Ele citou também a possibilidade do Brasil abrir a economia, mas vale lembrar que isso só seria benéfico se a indústria brasileira fosse capaz de competir com a concorrência estrangeira. Pois ai entra o primeiro ponto negativo citado por ele, pois se a indústria brasileira não for competitiva ela não conseguirá enfrentar a oferta externa, o que levará a uma redução na sua produção, produzindo menos ela vai precisar de menos funcionários, ou seja o desemprego irá aumentar e a renda do país vai diminuir o que seria péssimo para o Brasil.
Outro ponto negativo apontado por Grisi é que para comprar Dólar, tentando contra-balancear essa valorização do Real, o Governo emite títulos de dívida pública, pagando juros iguais a taxa selic, e com esse dinheiro compra Dólar que tem uma baixa rentabilidade, aumentando a dívida interna. Mas qual o problema disso? Bom vamos pensar nós pegamos um empréstimo à uma taxa de juros de 10%, assim se pegarmos R$100,00 emprestados temos que pagar R$10,00. Então pegamos esse dinheiro e compramos algo que vai nos render 1% sobre esses R$100,00, ou seja ganharemos R$1,00, uma conta simples nos mostra que vamos dever R$9,00, é por isso que essa operação aumenta a dívida interna brasileira, o que não é benéfico.
Diminuição da selic: outro ponto que eu achei interessante foi a proposta de aumentar a selic para conter esse fluxo de investimentos, o que realmente pode ser bom. Vamos voltar a arbitragem do início, o que levava o investidor a escolher investir aqui era a taxa de juros alta, que fazia valer a pena o risco maior. Diminuindo essa taxa de juros o investimento no Brasil deixa de ser tão tentador e portanto o fluxo de capital estrangeiro para o Brasil diminui. Mas o que eu mais gostei no comentário foi ele dizer que seria necessário contingenciar o crédito aumentando compulsório bancário. Bom parece que ele ta falando Grego, mas a idéia é simples. Nos últimos tempos parece que no Brasil a unica forma de conter a inflação é a taxa de juros, devido ao mecanismo que eu expliquei nos posts anteriores de que a taxa de juros é o custo de oportunidade do uso da moeda, portanto se ela aumenta, aumenta o o quanto deixamos de ganhar quando consumimos ao invés de investir. Mas essa não é a unica forma de conter o consumo através de política monetária.
Aumentar o compulsório é uma outra forma, vai ser um pouco complicado entendermos, mas vamos lá. Primeiro temos que entender o que os bancos fazem com o dinheiro que deixamos nele. Quando colocamos dinheiro no banco, parte desse dinheiro ele tem que deixar depositado obrigatoriamente em uma conta no Banco Central (esse é o chamado depósito compulsório), e outra parte ele empresta para outras pessoas. Ou seja os bancos também criam dinheiro, pois eles emprestam parte do dinheiro que você depositou, e o tomador desse empréstimo vai depositar o dinheiro no banco, que irá emprestar parte desse dinheiro para outra pessoa e assim vai, esse é o chamado multiplicador bancário. Vamos usar um exemplo, você deposita R$100 no banco, e o depósito compulsório é de 10%, assim o banco deposita R$10,00 e empresta R$90,00 para outra pessoa. Essa pessoa deposita esses R$90,00, então o banco deposita R$9,00 de compulsório e empresta os outros R$81, bom até agora então os seus R$100,00 viraram um empréstimo de R$90,00 e um empréstimo de R$81,00 somando da R$271,00, e assim continua e é assim que os bancos criam moeda.
E como o aumento do compulsório ajuda a conter a inflação. Se aumenta o compulsório essa taxa de criação de moeda fica menor, pois o banco pode emprestar uma parte menor do seu dinheiro, com menos moeda na economia o consumo fica menor e assim a pressão inflacionária também.
Bom espero que tenha simplificado um pouco as coisas. Até mais.



